- Ah, você veio. – Disse-me com um sorriso torpe e os olhos úmidos. Abraçou-me rapidamente e acrescentou. – Vá, ele está lá em cima.
Subi as escadas completamente atormentado pelo que estava por vir. Parei diante da porta de seu quarto e, antes de entrar, senti a atmosfera fúnebre me assombrar. Dentro daquele quarto estava um cadáver. Como seria isso, de estar diante de gente morta? Como é isso de que meu melhor amigo estar morto? Nunca havia sentido algo parecido. Eu estava completamente aterrorizado.
Toquei a maçaneta e entrei. A casa era velha, a porta rangeu. Olharam para mim. Em seu leito, Seu Ruliver descansava sob lençóis brancos. Eu podia sentir a textura macia de seu pijama mesmo de longe. Ao lado, sentado em uma cadeira, estava o Dr. Verner. Cheguei no exato momento em que ele abaixava delicadamente as pálpebras de Seu Ruliver. Eu entendi. E ao entender, deixei vazar nossa amizade pelos meus olhos inconsoláveis.
Eu era um menino de treze anos em pé sob o vão da porta. A posição mais vulnerável do mundo.
Involuntariamente, dei um passo à frente. Notei a Dona Franscisca ao pé da cama, segurando fortemente a mão de Seu Ruliver. Em seu colo havia um livro vermelho. Cheguei ao lado do defunto e olhei bem para a pele de seu rosto. Nunca tinha o percebido dessa forma. Ele cheirava a flores.
Dr. Verner se levantou e saiu. Ninguém disse nada. Olhei para Dona Franscisca novamente. Vi um olhar encharcado, mas que nunca esteve mais sereno. Ela entrelaçava os seus dedos ao do marido e os esfregava, por vezes olhando para a capa lisa do livro em seu colo.
- Cinqüenta e dois anos de casados. – suspirou.
Pensei que ela iria desabar. Minha boca estava tampada pela minha mão trêmula. Mas ela logo tratou de se recompor.
- Hoje, logo quando acordou, me pediu para eu ler pra ele. Essas são as melhores histórias que ele já escreveu. Todas escritas na época em que nos conhecemos. – Sorriu dolorosamente. – Uma vez eu perguntei a ele por que em todas as suas histórias tinham sempre um jovem casal vivendo um romance. – Ela acariciava a capa. – Então, com olhos apertados, ele me respondeu que quando estamos apaixonados é que fazemos as coisas mais incríveis.
Quando ela terminou, eu a ofereci um copo de água. Ela rejeitou apenas balançando a cabeça. Foi quando decidiu continuar.
- Ontem ele me disse que teve uma premonição. Foi um sonho, na verdade. Disse que ele voltava da padaria com alguns pães, e, quando chegou, me viu na varanda, pegou minha mão e me trouxe até o quarto. Sentou bem aqui e, da sacola de pães, tirou um belo vestido e o estendeu pela cama. Olhou pra mim entusiasmado e disse “porque não veste esse? Você fica tão linda de azul…”. Eu o vesti diante dos seus olhos e então dançamos valsa sabre o carpete.
Eu assistia àquilo preocupado, como quem vê alguém vagar à beira do abismo do delírio.
- Ele já estava mal, Dona Francisca? Esses devaneios…
- Mal? Eu não diria isso. Ontem ele nem tava sentindo dor!
- Então por que acha que ele te disse isso?
- Bom, depois disso ele ajeitou meu cabelo e me explicou que quando estamos apaixonados é que fazemos as coisas mais incríveis assim.
Caiu-me outra lágrima impressionada. E caiu tão rápida que não tive tempo de contê-la. Eu percebi, completamente extasiado, o milagre pueril em que Dona Franscisca havia aceitado a paz mais bonita e sincera que Seu Ruliver havia construído para ela.
Diego Neves Cotta – 09/06/2012.


