Posted 16 hours ago

27. Sobre Janelas e Joelhos


        Duas janelas me permitem assistir o mundo. Uma delas é a tela do computador, a tela do cinema, a tela do televisor, que me dá acesso à realização do fantástico e imaginável. A outra é a do ônibus. Mas esta, é a que me permite assistir o mundo como a fonte de toda inspiração, do inimaginável. É através deles que vejo negros dando esmola para brancos. Acho que eu estou tão presente no ônibus quanto eles em mim. É por isso que falo tanto deles.

        Surpreendo-me toda vez que vejo alguém dormir ao meu lado no ônibus - no sentido espantoso, que me parece incompreensível. Hoje mesmo me sentei ao lado de um garotinho que, completamente sozinho, escorava a cabeça no vidro enquanto escutava músicas em seu celular. Devia ter algo entre dez e doze anos, portava uma mochila e vestia uniforme. Eu, distraído, só notei que ele havia adormecido quando escorou seu joelho bambo no meu. Olhei para ele e o vi em sono profundo. Fingi que não.

        Meu primeiro pensamento rondava em como ele era capaz de dormir, em tom indignado. Afinal, uma vez inconsciente, existe o perigo do ônibus passar pelo seu ponto e te levar pro outro lado da cidade. De onde vem tanta tranqüilidade e confiança para se permitir apagar?

        Que tipo de música ele poderia estar escutando? Voltei a olhá-lo e já não sabia mais dizer se ele dormir por cansaço, ou por inocência.

        Afoguei-me em autocríticas. O garoto escorava em mim e, apesar da imigrante preocupação, não me sentia incomodado de forma alguma. Pelo contrário, ao ver que ao meu lado estava uma criança, minha tolerância logo tratou de comportá-lo. Mas se fosse ali um adulto qualquer, certamente estaríamos tratando de  um episódio inconveniente.

        Seria então a idade o que determina e nos autoriza a apoiarmos os joelhos?

        Preferi esquecer. Algo estava para acontecer e censurar-me seria um desrespeitoso desperdício, na proporção em que trazer a discussão para mim mesmo seria ignorá-lo ao meu lado.

        Seu joelho começou a se debater, como se sua consciência quisesse vir à superfície. O joelho se afastou, como quem não quer incomodar o vizinho, mas não demorou para que se esparramasse outra vez. Fiz-me de represa. Enquanto eu me munia de pensamentos, ele se deleitava em sonhos. E não pude saber de nenhum.

        Pensei que dos mais cruéis egoísmos, o maior está na frieza de quem sonha.

        Calmamente,  o garoto despertou sem nem olhar para a rua, guardou seu fone de ouvido e celular no bolso, levantou, deu sinal e desapareceu, como se o sono fosse todo planejado e o ônibus fosse seu santuário de viagens secretas.

        Sei que não é nada de extraordinário, mas empunho e revelo assim esses meus simples pensamentos na única intenção de oferecê-los em troca desses puros sonhos. É pela vontade que nunca me dorme de também abrir e ver o mundo por uma terceira janela.

 

                     Diego Neves Cotta – 29/05/12 – Baseado em acontecimentos reais.

Posted 2 weeks ago
“Alphonse! Algum dia eu voltarei e te levarei de volta! Espere por mim!” - Edward Elric. Fullmetal Alchemist, ep 26. Uma das melhores cenas do anime.

“Alphonse! Algum dia eu voltarei e te levarei de volta! Espere por mim!” - Edward Elric. Fullmetal Alchemist, ep 26. Uma das melhores cenas do anime.

Posted 1 month ago

Hugo (2011).
“Maybe that’s why a broken machine always makes me a little sad, because it isn’t able to do what it was meant to do… Maybe it’s the same with people. If you lose your purpose… it’s like you’re broken…”
“I’d imagine the whole world was one big machine. Machines never come with any extra parts, you know. They always come with the exact amount they need. So I figured, if the entire world was one big machine, I couldn’t be an extra part. I had to be here for some reason. And that means you have to be here for some reason, too.”

Hugo (2011).

“Maybe that’s why a broken machine always makes me a little sad, because it isn’t able to do what it was meant to do… Maybe it’s the same with people. If you lose your purpose… it’s like you’re broken…”

“I’d imagine the whole world was one big machine. Machines never come with any extra parts, you know. They always come with the exact amount they need. So I figured, if the entire world was one big machine, I couldn’t be an extra part. I had to be here for some reason. And that means you have to be here for some reason, too.”

Posted 1 month ago

26. Pandora


        Blackout.  

Sou noção.

Tudo é preto, mas sei que estou vivo. Sou quase surdo, mas recupero a audição aos poucos. Não sei se respiro.

Sou presença

Estou. Embora a ausência ainda seja a maior parte de mim. Não consigo saber se tem mais alguém aqui.

Sou pensamento.

Minha memória não funciona. O sono ofusca minha concentração. Eu tenho vontade. Sinto-me soterrado, profundo.

Sou intenção.

Estou desnorteado. Desejo alguém pra ajudar. Quero que alguém me diga onde estou. Não posso cair no sono novamente.

Sou angústia.

Por que tudo parece impossível? Até quando isso vai durar? Acho que não estou bem, eu preciso de um médico.

Sou percepção.

Entendo que estou deitado. Meu corpo é gélido, estagnado. Já consigo ouvir com mais precisão, mas tudo está em silêncio.

Sou agonia.

O sossego me abandonou.  Eu quero poder me mover! Sinto vontade de chorar, mas não sei consigo. Tento enrijecer meus músculos.

Sou arrependimento.

Não sei o que fiz para estar aqui. Quero voltar atrás, eu quero sair daqui! Eu faço qualquer coisa! Quero ter o controle de volta!

Sou intolerância.

Sinto-me sufocado. Cada segundo aqui me torna mais inalcançável. Não quero mais esperar! Sei agora que respiro, porque a ansiedade infla meu peito.

Sou esforço.

Acho que movi minha mão. Meus olhos se abriram, mas tudo permanece preto. Percebo que estou num lugar confortável, talvez seja uma cama.

Sou preocupação.

Devo estar em um hospital. Talvez por conta de um acidente. A enfermeira deve vir em algum momento.

Sou dor.

As luzes voltam subitamente direto em meus olhos. Eu os aperto o mais forte que consigo enquanto tento virar minha cabeça. Tudo está tão claro…

Sou curiosidade.

Com dificuldade abro uma pequena fresta em meus olhos e tudo está embaçado. Entendo que estou num quarto branco.

Sou instinto.

As paredes são feitas de vidro. Vejo estantes e móveis em geral, mas me falham os detalhes. Há soro ligado às minhas veias. Meu olfato se recupera. Sinto cheiro de álcool.

Sou dúvida.

Ouço passos. Consigo virar a cabeça. Vejo ao pé da maca uma mesa branca com uma pequena maleta e uma série de ferramentas. Ao lado há um computador.

Sou medo.

Alguém se aproxima descendo as escadas. Consigo levantar minhas mãos ao rosto e sinto minha face. Minha boca está seca. Tenho que sair daqui.

Sou engano.

As ferramentas não podem pertencer a um hospital. Acho que não estão aqui para me ajudar. Eu fui sedado, seqüestrado? Tenho que sair já!

Sou insegurança.

Não posso correr o risco. Não sei o que está acontecendo. Não consigo enxergar direito. E se ele descobrir que eu estou acordado?

Sou terror.

Os passos chegam à sala e se aproximam. Ouço a porta se trancar. Fecho meus olhos, fico imóvel. Minha respiração irá me revelar, não consigo controlar. Engulo a seco.

Sou vulnerabilidade.

Ele está de pé ao meu lado e sei que me olha agora. Estou diante da morte? Não sei se tenho força para detê-lo. Ele aproxima o seu rosto do meu. O que ele quer fazer?

Sou ímpeto.

Surpreende -me a força com que meus braços se levantam à sua garganta. Meus olhos se abrem em direção aos dele, arregalados. Ele resiste, mas invisto tudo que tenho.

Sou impiedade.

Suas veias incham e se tornam visíveis até aos meus olhos. Sua pele é quente. Sua língua treme. Ele se lança para trás e caio da cama junto a ele. Derrubamos uma estante. Seu pescoço me escapa e sua cabeça está vermelha.

Sou determinação.

Puxo a gola de sua camisa e ele parece não ter forças para reagir. Pressiono a ponta dos meus polegares em seus olhos. Ouço um grito que meus recém ouvidos não dão importância.

Sou ira.

Suas mãos repulsam as minhas pelos meus pulsos. Eu ganho. A minha visão vai ganhando uma borda vermelha que escorre pelo branco do chão. Ele se debate, eu o solto.

Sou fraqueza.

Ele agarra um objeto que não identifico, mas que atinge a minha cabeça. O jorrar do sangue alcança o teto. Eu me viro, ele se arrasta.

Sou revolta.

No chão, ao meu lado, vejo uma seringa entre meus dedos. Meus olhos são incapazes de me dizer se há agulha. Aliso e há.

Sou outro.

Ele tenta escapar. Eu rastejo, eu o alcanço. Cravo a agulha em sua coxa. Nossas roupas estão ensangüentadas. Retiro a agulha. Seguro seu cabelo com força e perfuro sua nuca. Eu, por definitivo, ganho.

Sou cansaço.

Deito-me ao seu lado, ofegante. Minha visão se torna melhor. Olho ao redor. Estou num laboratório. Ouço o estalar das chamas que se formaram quando derrubamos algo durante a luta.

Sou indecisão.

O cheiro se alastra, assim como o próprio fogo. Preciso fugir. Tento me erguer. Percebo que não tenho pernas. Não tenho pernas.

Sou desespero.

Descubro que consigo chorar e gritar. O chão parece ter mais sangue agora. A fumaça me obriga a me arrastar para o outro lado do quarto. Dou de frente para o vidro reforçado. Do outro lado, apenas a mata. A sala está lacrada.

Sou propósito.

Vejo a inscrição “Projeto Pandora”. Vou até a escrivaninha e derrubo as gavetas que transbordam papéis. Com esforço, consigo ler uma folha. É uma espécie de diário de bordo.

Sou horror.

Leio e entendo que o objetivo inicial do projeto era criar um clone de si próprio e o sucesso foi obtido. Após um acesso de fúria do clone ao despertar, a necessidade agora era trazer o original de volta à vida. O acidente se repete pelas próximas trinta páginas, alternando os agentes. Sou parte de um fúnebre ciclo vicioso. Arrasto-me de volta para o cadáver e percebo como somos idênticos.

Sou culpa.

No reflexo do vidro, vejo como nossas cicatrizes nos tornam diferentes um do outro. Eu lamento. Minha imagem espelhada está em uma moldura em chamas. Luto contra o fogo para permanecer vivo. Minha expectativa é de que não seja eu o clone.

Sou esperança.


 

         Diego Neves Cotta – 01/04/12 - Inspirado na música “I Need a Doctor” e no mito da Caixa de Pandora.

Posted 1 month ago
Metropolis (1927).

Metropolis (1927).

Posted 2 months ago
diegooooooooooooooooo oi =) eh brunno
julgodacarne asked

NÓÓÓÓÓ, você existe na internet!!!!

Posted 2 months ago

Sangue Negro (There Will be Blood, 2007).

Pavorosamente grandioso. Lendária atuação de Daniel Day-Lewis.

Posted 2 months ago

25. Olhadores de Bundas Anônimos (+18)


        É começo de noite. O homem que esperava acena. O outro o vê e vem se juntar a ele. Estão sentados no banco da praça.

- O que te aconteceu, que cara é essa toda machucada?

- Preciso muito falar com você. - senta olhando em volta.

- Pode falar, ué.

- É urgente. Preciso que me conte sobre aquilo.

- Aquilo o quê?

- Aquele grupo…que você…

- Ah, não. Não. Esquece isso, finge que eu nunca te falei dele, ta bom? Aquela conversa nunca existiu!

- Por favor, cara. Eu preciso muito. Eu sei que eu não levei a sério no começo, mas olha pro meu nariz agora, todo fodido!

- O que aconteceu com você?

- Eu tava na farmácia e tinha lá uma mulher maravilhosa, com um shortinho branco, uma bunda enorme e…eu não pude evitar, fiquei olhando! Me escapou um pensamento em voz alta e quando eu me dei conta o marido dela, um desses mamutes de academia, tava do meu lado me encarando. Ele me falou uns desaforos e a gente acabou brigando no estacionamento.

- Minha nossa.

- Foi mais ou menos assim que você se motivou a entrar também, não foi? Você precisa me ajudar, cara.

- É, já me aconteceu algo parecido. A gente acha que essas coisas nunca vão acontecer com a gente e que olhar bunda de mulher é normal. Mas isso é uma doença, acaba com a nossa vida. Eu amava minha namorada e a perdi por causa disso. Estupidez.

- Somos mesmo uns miseráveis. Detestáveis!

        Uma mulher de vestido florido passa e ambos acompanham suas pernas sem perceber.

- …uns safados…

- Talvez nossos órgãos só sejam mais bem desenvolvidos…

- Como assim?

- Eu to falando dos olhos! Os olhos! Prazer visual.

- Mas a fixação por bundas é mais intensa.

- De acordo.

- Então! Preciso entrar nessa terapia aí. Por favor! Me diz onde é, eu vou lá, faço minha inscrição, eu não falo pra ninguém que te conheço.

- Não, cara, tira isso da cabeça, aquilo não presta pra nada.

- Como assim, não presta pra nada? Tá doido?

- Não presta, ué. Não funciona. Ninguém se curou lá até hoje. Tentaram de tudo, não adianta.

- O que já tentaram?

- Já assistiu a “Laranja Mecânica”?

- Claro.

- Então. Colocaram a gente pra assistir um vídeo de oito horas só de bundas. De todo tipo que você imaginar. Acharam que a gente ficaria enjoado e que não agüentaria mais nem ver uma bunda. Tá, até parece. Saímos de lá mais tarados ainda por uma de verdade.

- Tem como me passar esse vídeo?

- Depois tentaram criar uma imagem nojenta para as bundas. Umas próteses de silicone em tamanho real que exalavam um odor insuportável, um cheiro de peido morto infernal. A gente deveria ficar ao lado delas toda vez que sentisse atração, pelo menos três horas ao lado de uma, durante duas semanas. Uma merda. Sabe o que os caras fizeram já no terceiro dia? Limparam. Problema resolvido.

- É, quando as nádegas são boas…

- Tentaram até fazer com que a gente olhasse as bundas de outros membros do grupo, pensando que criaríamos alguma espécie de aversão. Abortaram o plano quando perceberam que isso tava influenciando a sexualidade de alguns integrantes e que no final estariam olhando para bundas do mesmo jeito.

- Que pesadelo. Então até hoje vocês não encontraram nenhuma cura pra isso?

- O grupo acabou, cara. Chegamos à conclusão de que não há cura. É da natureza do ser humano olhar bundas, assim como tantas outras coisas.

- Então eu devo aceitar que as bundas vão destruir minha vida, toda a minha cara e pronto? O grupo não te ajudou em nada?

- Claro que ajudou. Sem ele, eu não teria percebido que olhar bundas era verdadeiramente inevitável. Sendo assim, investi na minha carreira profissional como publicitário. As pessoas se sentem atraídas pelo que é censurado. É impressionante, é só colocar bunda na imagem, na embalagem ou no título, que as pessoas dão atenção.

 


    Diego Neves Cotta – 12/03/2012 – Dedicado a todos que nunca tinham me lido até agora.

Posted 2 months ago

Across The Universe (2007).

Posted 2 months ago

24. Aranhas de Canto da Sala


       Era habitual que o garotinho fosse para o castigo. Ficava obrigatoriamente de pé na aresta da sala, e quando teimava ou era grave, era para ficar de frente para a parede. Eram cinco minutos carrancudos de revolta contida. Como odiava ficar naquele canto, sem fazer nada, quando podia estar brincando, assistindo desenho ou jogando vídeo-game.

       Até que alguns meses passaram, e, numa ocasional teia de aranha que se formou, o garotinho conheceu outros sentimentos que não a repressão.

        Ficava pregada bem lá no alto, discreta, entrelaçada, construída na divisa com o teto. Mas o fato era que a proprietária, uma aranha em meditação, ficava bem acima dele quando o castigo o aprisionava ali, e isso o deixava apavorado. E se aquela aranha descesse até ele? O que poderia lhe acontecer? Que aflição! A vontade de sair dali era muito, muito maior. Não pensava em mais nada, senão sair depressa dali.

        A aranha expandiu seus domínios e um dia ela chegou bem próxima do garotinho, que saiu chorando, desesperado por piedade. Seus pais removeram a aranha e limparam a aresta, tirando toda a teia dali. Que alívio.

        No dia seguinte, o garotinho fez coisa errada de novo e voltou para o canto.  Mas que coisa revoltante é ficar aqui de castigo nessa parede, quando podia estar fazendo outras coisas. A teia - que já não mais lá, assim como o medo - o inspira. Começou a pensar em como a presença da aranha banalizava aquele terrível simples castigo de ficar no canto da sala. Que ela, ali, fazia com que aquele momento se revelasse pouco, pequeno, e, talvez, nem ela mesmo seria esse grande problema que o ele imaginava, se houvesse outro maior para tomar-lhe a prioridade.

        Ornamental.    

        Afinal, será que sabemos realmente mensurar o tamanho e importância dos obstáculos com que nos deparamos? Será que às vezes não atribuímos valor demais a elementos que não deveriam nos afetar tanto?

        Reflito. Elaboro.

        E se?

        Simplifico. Descarto.

        Prefiro. Tempero.

        Elejo. Medito.

        Passo a limpo.

        Esse garotinho cresceu, e hoje percebe que está rodeado de pessoas que deveriam também ter conhecido as primordiais aranhas de canto da sala.



                 Diego Neves Cotta – 17/03/2012 – Dedicado a Isabel Pellegrinelli.